quarta-feira, 21 de março de 2012

Perigo: Loira à vista!!


Eu não conheço muitas cidades no mundo, mas a sensação que eu tenho é que NY não é parte dos Estados Unidos. Na verdade, NY é um território neutro administrado pelos americanos. É de fato a capital do mundo. E eu não estou falando sob uma aspecto financeiro, mas, sim, social.

Aqui você consegue encontrar literalmente pessoas de todos os buracos possíveis. Eu já conheci gente dos grandes países da Europa, Ásia e América. Mas conheci gente também de alguns lugares que eu jamais imaginaria como Bangladesh, Cazaquistão, Moldávia, Albânia e etc. Todos por alguma razão aqui, perdidos em NY.

E por falar em Bangladesh, conheci o filho de um ministro da suprema corte de lá. Foi aí que me dei conta o quanto sou desinformado e também preconceituoso. Quando ele me perguntou o que eu fazia e eu disse que era advogado ele disse que era também e que o pai dele era da suprema corte. Confesso que me veio a mente algo como: “Nossa, existe uma corte suprema em Bangladesh!? Sei! Deve ser uma beleza!”.

Enfim...

É interessante notar que grande parte das pessoas que aqui estão, por não estarem inseridas mais no ambiente cultural original, sentem-se mais soltas e acabam sendo mais espontâneas ou mesmo fazendo coisas que não fariam em seu próprio país. É por isso, por exemplo, que há um número gigantesco de gays. Ainda que não tenha sido o maior motivo para a vinda para NY, as pessoas aqui se libertam um pouco de algumas amarras pelas mais diferentes formas que se pode imaginar.

Por isso mesmo, você nunca sabe que tipo de pessoa você pode encontrar e o que pode acontecer.

Essa semana, por exemplo, fui a um restaurante russo para fazer jus à minha fama de russo e depois fui a um bar. Uma noite simples, mais muito gostosa. Estava quente. Foi a primeira vez que consegui usar camiseta à noite.

Já era tarde da noite quando entrei na 44, entre a quinta e a sexta avenida. A rua estava bem deserta. Enquanto olhava para frente, percebi um carro se aproximando e lentamente parando. Simplesmente continuei a andar acreditando que ele fosse estacionar.

Ao passar pelo carro, o motorista fala alguma coisa que imaginei ser para mim, já que a rua estava vazia. Paro de andar e volto alguns metros para conseguir ver o motorista. Pensei que a pessoa poderia querer alguma informação sobre algum lugar ou endereço.

Inocente!

Enquanto caminhava na direção do Minicouper, percebi que o vidro que estava aberto pela metade, foi aberto totalmente. Ao chegar no carro, me deparo com uma loira de olhos azuis extremamente bonita. Parecia uma modelo. Estava vestida com roupa típica de balada americana: vestido curto.

Preparei meu ouvido para alguma perrgunto sobre caminho e eis que escuto:

“Para onde você está indo?”

Não entendi muito bem a razão da pergunta, mas respondi:

“Para minha casa”

A resposta:

“Posso ir com você?”

Essa era a última coisa que esperava ouvir. Por mais maluca que seja NY, não é todo dia que uma loira para você na rua e pergunta se pode voltar com você para casa no meio da noite. Convenhamos!

Vindo do Brasil e considerando que a rua estava vazia, pensei que estava sendo vítima de um golpe. Olhei para todos os lados procurando por alguém! Não sei muito bem o porquê, mas eu poderia jurar que a qualquer momento um cara ia aparecer colocar uma faca na minha garganta e falar entra no carro, moleque!!!

A rua estava deserta e não vi ninguém em minha direção. Descartei essa possibilidade.

Mas ainda assim, estava desconfiado! Gente, sejamos realistas. Eu nunca fui lá conhecido pela beleza! Depois de quatro anos sem pisar numa academia também não sou conhecido pela força. Pelo que sei, barriga ainda não virou moda. Alguma coisa estava errada. Se eu ainda fosse meu grande amigo Rodrigo Falcão, até poderia entender, mas no meu caso, alguma coisa estava bem errada!

“Deixa eu ir com você, a gente pode se divertir o resto da noite. Vamos fazer uma festinha!”

Todo homem precisa ter uma justificativa muito boa para negar um convite desse. Não é todo dia que você escuta isso. Basicamente, vejo duas razões principais para você dizer não: ou você é gay ou você tem uma namorada/noiva/esposa te esperando no Brasil. No meu caso, uma noiva.

“Olha, seria muito legal, mas eu tenho uma noiva! Na verdade, vou casar daqui há dois meses!!”

“E de onde você é?

“Sou do Brasil. E você?”

“Alemanha. Vamos lá vamos nos divertir! Vamos fazer uma naked party!!”

Aquela situação não fazia mais o menor sentido para mim. Uma modelo sendo rejeitada por um pancinha de chopp como eu e ela ainda insistia!? Alguma coisa estava muito errada!!!

“ Vai ser sua despedida de solteiro! Para você eu faço por 300 dólares!”

Explodi em uma gargalhada! Hahahahahahahahahahahahha

Pronto, mistério resolvido. Tudo explicado! Eu sou muito inocente mesmo! Óbvio que só podia ser um puta!

Educadamente me despedi e ganhei o cartão aí da foto, para “caso eu mude de idéia”.

Só em NY mesmo! Mas está aí mais uma dica caso alguém queira ligar!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Do dia em que virei Daniil Lealov

Obviamente o dia de cortar o cabelo ia chegar para mim! Eu não ia ter como escapar. A questão era: onde cortar o cabelo? Comecei uma busca pela internet e vi vários lugares nos quais eu poderia cortar. Como eu não conhecia nenhum, o meu guia obviamente seria o preço.

Todos eles custavam entre 30 e 40 dólares na média. Achei caro demais, considerando o pouco cabelo que me resta! São cerca de 70 reais! Nem a pau!

Busco mais um pouco e encontro uma tal de "Premium Barber Shop" (para quem quiser aqui está o site http://premiumbarbershop.com/). No fundo do site tem uma foto de NY que é até bonita. Achei apenas estranho o mané que também aparece. Olho o preço e me deparo com um 19,95! Não tive a menor dúvida de que esse seria o meu lugar.

Saio do escritório e vou para lá. De fato era uma barbearia. A recepcionista era a única mulher do lugar. Eram 5 barbeiros. O lugar era pequeno, com várias fotos de lutadores de box e UFC. Pensei, legal! Se vocês me permitem abrir parênteses, eu não gosto de ir em salão onde tem 450 mulheres com os pés para cima, cheia de creme no rosto com um monte de gays afetados falando sem parar. E aí, mais um parênteses: nada contra gays, mas sim com pessoas afetadas.

As cadeiras do local pareciam ter pelo menos 15, 20 anos. Eram feitas de ferro e com aquele pseudo couro preto que me remete aos móveis da casa da minha avó ou àquelas cadeiras antigas de consultórios médicos.

A recepcionista, que parecia ser do leste europeu, pede para que eu me sente e aguarde um pouco. Eram mais ou menos umas 5 pessoas na minha frente. Depois de uns 15 minutos, sento na cadeira para lavar o cabelo. A própria recepcionista executava a tarefa.

Assim que eu me acomodei na cadeira, ela conversou alguma coisa com algum dos barbeiros que não consegui entender. Me pareceu estarem falando em russo. Mais tarde tive a confirmação.

Quando ela começou a lavar meu cabelo quase dormi. Na verdade, era uma massagem. Simplesmente sensacional! Me senti um daqueles cachorros que quando você passa a mão na orelha ele vai virando a cabeça e fechando os olhinhos! Ual! Que mãos! Estava achando tudo ótimo até então!

Assim que ela termina, vou para a cadeira do barbeiro. Elas ficavam dispostas em L. Cadeira número 3 da esquerda para a direita. Eu estava até tonto. Parecia que eu tinha acabado de acordar de tão relaxado que fiquei!

Olhei para o barbeiro e não tive como não notar a semelhança entre ele e o cão "Rabugento” do desenho “A corrida maluca”. Ele era igual, mas com costeletas.

Ele vira e me pergunta de que corte eu gostaria e aí que essa história realmente começa! Eu não sou muito bom para explicar isso nem em português, imaginem em inglês...

Depois de gaguejar um pouco, eu sorri e disse que não sabia muito bem como explicar em inglês. O barbeiro não pensou duas vezes e respondeu: “Não tem problema, vamos raspar todo o seu cabelo assim é mais fácil!”. Na sequência, ele soltou uma gargalhada maligna! Depois disso, não demorei mais do que 3 segundos para conseguir explicar o que eu queria que ele fizesse!

Ele disse que seria o melhor corte que eu teria em NY. Vocês nem imaginam o quanto!

Começamos a conversar e ele me pergunta de onde eu era. Ao dizer que era do Brasil, ele riu e disse:

“Brazil is a crazy place!!! Brazil is crazy place!!!”

Eu achei que ele disse isso por conta de diversão e fama de festeiro que temos. Querendo ser simpático, eu disse que de fato era um lugar um pouco louco, mas que gostava de morar lá.

Ele ensaia uma risada abafada e diz que um em cada 10 brasileiros são mortos ou assaltados. Logo depois, solta de novo a gargalhada maligna!!! Fiquei meio sem saber o que falar e apenas sorri de volta, como se estivesse concordando.

Mudando de assunto, ele disse que seu tio morava no Brasil há 3 anos e que aqui ficaria por mais 25. Achei um pouco esquisito o fato de alguém saber exatamente por quanto tempo vai ficar num país quando se fala em mais de 10, 15 anos. Caí na besteira de perguntar o motivo de ficar mais 20 e poucos anos.

“Seu tio trabalha no Brasil? Ele está com a família?”

Ele soltou de novo a gargalhada demoníaca e com um sotaque russo repetiu por três vezes a mesma frase: “He is in Jail!!! He is in Jail!!! He is in Jail!!! E ao fim de cada frase ele soltava sempre a mesma risada!!

E eu com minha habilidade ímpar de sair dessas situações soltei: “Ah, good to him!”.

Assim que eu disse essa belezura de frase, notei que não foi a melhor resposta que eu poderia dar e emendei com uma pergunta sobre o motivo do titio estar preso.

“Bad things! Bad things! Bad things! He did bad things, you know”. 

"I don't know" E nem quero saber, pensei!

Antes que eu dissesse qualquer outra coisa, o barbeiro do lado, que havia acabado de voltar de algum lugar, começa a falar comigo em russo! Eu olhava para ele sem entender uma palavra sequer. Ao terminar a frase, fiquei olhando com uma cara de interrogação, quando o barbeiro que cortava meu cabelo se acabava na gargalhada do mal. Eles passaram a falar em russo. O segundo barbeiro ri, passa a falar em inglês e me diz que poderia jurar que eu era russo. Categoricamente afirmou que eu pareço russo e que eu falo inglês com sotaque russo!

Sotaque russo? ? ? Eu?

Acho que depois disso, o barbeiro que cortava meu cabelo levou a história a sério e resolveu me sacanear!!! Não teve dúvida e mandou ver um corte de cabelo 100% russo. Ao terminar, eu estava com corte bem quadrado que na hora me lembrou os jogadores da seleção de vôlei russa da década de noventa! Eu me senti o próprio Ivan Drago, o lutador russo de algum dos filmes da série Rocky. Um pouco mais gordo e menos forte, é claro!

Mais tarde, fui numa festa de aniversário e uma das amigas da aniversariante quis saber de onde eu era. Adivinhem que país ela chutou, Brasil? Claro que não. Ela disse Rússia!

Ao saber que era do Brasil, perguntou para aniversariante: tem certeza?

Desde então, tenho me apresentado como Daniil Lealov! Isso porque, toda vez que sou apresentado para alguém de algum país da ex-URSS, a pessoa repete meu nome como Daniil, que aparentemente seria a versão russa!

Dureza...