terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Definição de brasileiro: simpático e puto.

De fato, nós brasileiros somos conhecidos por sermos simpáticos e atenciosos com as pessoas. Tem hora até que acho isso um mito um pouco exagerado e que nem sempre se aplica à minha pessoa. Às vezes, não estou lá para muita conversa, não. Mas, no geral, eu me esforço para ser atencioso com qualquer pessoa, inclusive com as que me param pelas ruas de NY, sobre as quais devo escrever algo em breve.

Nessa onda de simpatia, um assunto que eu percebi ser muito corriqueiro é a beleza da mulher brasileira. Inegável o quanto os gringos de uma forma geral, e não me refiro apenas aos americanos, cultuam a mulher brasileira e ao mesmo tempo acham que nós, os brasileiros, somos uns putos devassos. No prédio em que moro, por exemplo, desde que os porteiros descobriram que eu sou brasileiro, agora sou tratado como “parceiro” e não mais como “senhor”, com exceção obviamente do Mr. Simpatia, que continua sendo mala. E o assunto invariavelmente é sempre o mesmo: mulher.

No dia em que disse que era brasileiro, estava a dupla de porteiros mais malandra: a da noite! Só para vocês entenderem, um fica atrás do balcão da recepção e o outro atrás da porta giratória. Bem de flat mesmo. Um deles, ao ouvir minha origem com a palavra Brasil, não teve duvida em me contar uma historia sobre o dia em que saiu com uma brasileira. Estava todo orgulhoso.

Para ser breve,  o ponto auge da conversa foi: “Aí eu estava lá sendo todo educado e tal, quando ela me vira dentro do carro e diz: eu quero transar com você! Cara, eu quase bati o carro! Não esperava ouvir aquilo. Vocês brasileiros são todos loucos”.

Na sequência, ele me perguntou quanto tempo eu ia ficar e ao responder 3 meses ele disse: “Oh, então você tem muito tempo para aprontar, e sendo brasileiro, vai sair com metade de NY!”. Eu tentei explicar para ele que eu tinha uma noiva e que eu iria me casar tão logo eu voltasse para o Brasil, quando ele começou um discurso:

“Bob, você ouviu isso?” perguntou ele para o outro porteiro.
“Não!” respondeu o outro.
“Ele disse que vai casar assim que voltar para o Brasil!”. Ambos riram e eu não entendi o motivo. O que estava atrás do balcão, levantou da cadeira, veio até mim e me soltou a pérola que, se vocês me permitem, vou escrever em inglês: “Man, do you know the five – ‘oul’ – five code?”
“No idea, man”, respondi.
“The five ‘oul’ five code is a code from the White House. It is a code from the own President Barack Obama, you know.

Parênteses. Toda vez que eu escuto um gringo dizendo a expressão, “you know” em uma frase, eu traduzo para “tá ligado”, o que no geral me deixa com vontade de rir. Não deveria ser essa exatamente a tradução, mas para mim you know é o bom e velho tá ligado. Ou como algumas meninas diriam: “saca”.

“The five ‘oul’ five code was created by the own Obama and is very important for you man! It means that no matter what you do here, or who you are, you are a single and the things you do here will be here. Don’t worry. Your apartment is your new home. You can do anything there. This is not our business. But, if you bring any woman here, my friend there, Bob, will inspect her, just to see if she is beautiful. We don’t allow ugly girls in the building, you know. Only in case you are very drunk, otherwise, no ugly girls!, ‘tá ligado’.”

Depois dessa não me restava nada alem de rir, aceitar a fama de puto e ir para o apartamento.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cuidado: Perigo por todos os lados!

No meu primeiro dia de trabalho descobri que treinamento de emergência é algo que os americanos levam muito a serio. Foi um dos primeiros treinamentos que recebi. Junto uma cartilha intitulada:

“Emergency Procedures”

“Take this document with you in the event of an emergency.”

Achei que fosse algo igual ao que temos no Brasil, ou seja, totalmente pro forma e que ninguém dá lá muita bola para isso. Achei que ia ser mais um documento que ia para a pilha de papéis que ficam na sua mesa e que depois de alguns meses você acaba jogando fora. Não aqui! Aqui o buraco é mais embaixo. Isso me mostrou um pouco do motivo pelo qual os EUA são considerados a sociedade do medo!

Logo na primeira página escrito em letras garrafais eu pude ler:

1. NATURAL DISASTERS AND GEO-SPECIFIC THREATS
2. VIOLENCE OR POTENTIAL VIOLENCE
3. MEDICAL EMERGENCY
4. FIRE EMERGENCY
5. UTILITY OR INFRASTRUCTURE OUTAGES
6. BOMB THREAT
7. BUILDING EVACUATION
8. SUSPICIOUS PACKAGES

Achei interessante e bem organizado, mas não me causou nenhum espanto num primeiro momento até então. Mas foi aí que começou a apresentação...

A responsável pelo curso disse que a primeira coisa que deveríamos fazer em caso de emergência e evacuação do prédio seria procurar sempre a pessoa de chapéu vermelho, pois ela estaria bem preparada para ajudar-nos e que apenas deveríamos sair do prédio se o alarme disparasse e com a devida orientação dessa pessoa. Disse que no passado aconteceram algumas explosões subterrâneas que eu confesso não entendi muito bem a origem, pois ela falava muito rápido. Acho que foi algo parecido com os bueiros do Rio. Sei que ela disse que muita gente saiu do prédio e que sofreram acidentes. Alerta!

Depois ela disse que já fazia algum tempo que não aconteciam terremotos em NY e que graças a Deus esse ano o tempo estava ótimo, então o numero de acidentes e tragédias tinha diminuído e que todos os dias tinha sido possível ir para o escritório! Continuando, ela nos aconselhou a tomar cuidado com pacotes desacompanhados de pessoas e para alertamos um segurança tão logo identificássemos algum. E por aí seguiu-se a apresentação.

Talvez eu não esteja conseguindo reproduzir aqui a forma e emoção como ela estava repassando todas essas informações. Só sei que aquilo foi me despertando um estado de alerta que muito rapidamente passou para o medo mesmo! Foi aí que não tive dúvida, interrompi sutilmente a apresentação na primeira oportunidade e num tom informal disse que tão logo ela encerrasse a explicação eu iria pegar o vôo direto para o Brasil, que em poucos instantes me pareceu ser o lugar mais seguro do mundo! Minha interrupção ainda que de forma intuitiva teve por objetivo descontrair a apresentação para aliviar acho que meu próprio desconforto. Na hora, todo mundo riu, mas na seqüência, a seriedade voltou a dar o tom e não sem motivo, novamente fiquei apreensivo. Foi o curso que eu mais prestei atenção!

Ela pediu para que lêssemos o documento. Comecei a ler imediatamente. Transcrevo um pouco do seu conteúdo para dar uma idéia:

Earthquake Procedures
Action to take
1. Immediately move away from all glass, staying away from windows, glass doors, and any objects that could fall on you.
2. Take cover underneath a table or desktop. Cover your head with one hand and hold on with the other hand.
3. Do not try to enter or leave the building during or just after an earthquake.
4. After the initial movement has passed, move away from the perimeter of the building toward the center core of the building. Be aware that there may be aftershocks.

Tornado Procedures
Action to take
(…)
4. Sit down in the stairwell and protect yourself by putting your head as close to your lap as possible or kneel, protecting your head.

Bomb Threat
If you receive a bomb threat call, keep calm. Advise the caller, if you can, that the detonation of the bomb may kill or injure innocent people. Try to obtain the following information:

Expected time of explosion
Location of the bomb
Size and type of the bomb
Reason the bomb was placed

Suspicious Packages
A small supply of gloves and masks is available as optional supplies in every mailroom and every service center for use by KPMG personnel or KPMG contractors at their request.
A supply of large self-sealing plastic bags is provided in the mailroom in the event that a suspicious package or letter is found.

Depois que li tudo isso repeti para mim mesmo, que merda toda é essa e o que eu estou fazendo aqui? Comecei a me perguntar objetivamente: será que eu estou realmente correndo perigo? Fiquei pensando na minha avó que acha que qualquer lugar fora do Brasil tem terremoto e atentados terroristas e sempre fica com medo quando viajo para o exterior. Sempre achei engraçado e tentava explicar que não é bem assim para ela. Será que esse é o lugar com o qual eu devo me preocupar? Será que aqui é o tão temido exterior da minha avó?

Comecei a me perder na apresentação imaginando como seria isso e como foi o 11 de setembro. Deve ter sido algo maluco! Sem perceber estava imaginando qual seria minha reação. Pensei num terremoto. Seguindo o manual eu deveria me afastar das janelas, por um mão na cabeça usar a outra para segurar e me jogar rapidamente para debaixo da mesa e não sair do prédio. Tá bom! Funciona, sim! Sem chance! Eu não ia conseguir fazer isso nem a pau! O andar de International tax onde eu deveria estar, está em reforma, então estamos no subsolo B, o qual diga-se de passagem, não tem janelas. Se eu conseguisse me mexer e não ficasse igual pipoca numa panela com óleo, eu não ia ficar esperando ver o que ia acontecer! Se o prédio cai, eu não vou sair nunca já que 40 andares cairiam sobre minha cabeça! A chance só seria menor para as pessoas que estão no subsolo C e D (sim são 4 subsolos de prédio). Eu ia era correr e sair do prédio tão logo conseguisse! Na rua eu posso tentar desviar do que cair, sei lá! Confio mais no meu método tupiniquim!

E no caso de evacuação? Já pensou se o cara do chapéu vermelho teve uma caganeira no dia e esta no banheiro? Eu vou procurar o bixo e não o acho. Vou e correr o máximo que puder. E outra, eu imagino o como o cara não ia estar desesperado. Qual ia ser a chance de ele dizer: “Pessoal, fiquem tranquilos, abandonem sua mesa e vamos sair do prédio com calma e em fila”. Se bobear o cara ia ser o primeiro a a passar por cima de mim e sumir!

E o ataque a bombas? Olha só o que é sugerido? Imaginei se um dia meu ramal toca, e eu escuto um inglês com sotaque meio do oriente médio dizendo: “Good morning my friend! I'd like to let you know that there is a bomb in your buiding!”. Qual a chance de eu calmamente mandar todas essas perguntas: “Ooooo, Mr. Bomba, could you please provide me with the expected time that will take for the explosion of the bomb? And of course can you tell me where is the bomb or should I guess? Besides can you give any tip about the size and the type of package you hired it? And finally, if you don’t mind just to know because I am not a gossipy person but why did you put this bomb? By the way, do you think it would be possible to postpone the explosion to April 25, same time, since by this date I will be left US and I will be back in Brazil?

Cara, ainda que eu conseguisse fazer as perguntas o que certamente eu não conseguiria pois eu ia estar nervoso pra caramba, eu não ia entender nada sobre as repostas. Eu ia ter que mandar uns “could you repeat please, Mr. Bomba?”. O cara ia ficar puto e explodir o prédio o quanto antes ou ia pedir para falar com meu chefe. Eu não consigo entender 100% o que o pessoal do IT que fica na Índia fala. Certeza que não ia dar certo!

Depois de muitos devaneios voltei à razão e esqueci complemente o assunto.

Mas foi aí que na minha primeira semana enquanto estava na minha mesa, o alarme dispara! PQP pensei! Agora fudeu! Dei um pulo da cadeira e comecei a ver a reação do pessoal. Pensei: "se eu vir alguém correndo, vou correr o máximo que posso sem pensar duas vezes!". Todo mundo se olhou um pouco intrigado, mas logo depois de alguns disparos, o som foi cortado e uma voz anunciou que se tratava de um teste.

Alivio imediato.

Depois desse, em uma semana e meia desde que cheguei aqui, mais dois testes foram realizados. É de matar qualquer cristão!

Pelo sim ou pelo não a partir de agora vou deixar o meu guia de procedimentos de emergência por perto.

Just in case!


domingo, 22 de janeiro de 2012

Ops... Foi engano!


Sábado à noite. Por que não dar uma saidinha e tomar uma cerveja nesse frio do caramba? Vamos começar a conhecer a noite por aqui! Abro um desses sites de buscas de bares e baladas. Achei uns dois que poderiam ser bacanas e que ao mesmo tempo fossem próximos aqui de casa. Dava para ir a pé. Fusion. Guardem bem esse nome. Fica na Décima com a 54. Anotem esse endereço.

Em cerca de 20 minutos eu chego no lugar. A julgar pela fechada, achei que estivesse fechado. O local era estreito como se fosse uma lanchonete dessas de São Paulo e não tinha absolutamente ninguém na rua. Achei muito estranho. Uma cortina azul cobria toda sua entrada envidraçada. Me aproximei da porta e ouvi uma música ao fundo. Pensei, está aberto. Puxo a porta e entro.

Assim que a porta se fechou atrás de mim, enquanto eu ainda ouvia o “click” do trinco, pelo meu lado direito dei de cara com um travesti de cabelos escuros bem longos sentado em um sofá redondo exatamente atrás da cortina que eu conseguia ver do lado de fora, o qual me encarava como que a me convidar a sentar do lado dele. Achei muito estranho, mas até aí estamos em NY, um ambiente moderno e cheio de pessoas do mundo inteiro. Dei um passo e continuei olhando para o bar.

Era uma atmosfera escura com sofás de camurça e luzes que oscilavam entre o vermelho e o roxo. Atrás do balcão estava o barman de camisa branca e gravata borboleta preta, preparando um drink com uma coqueteleira. Na sua frente, dois homens conversavam com duas até então mulheres que ao perceberem a minha entrada olharam para trás quando, então, pude perceber que, na verdade, eram mais dois travestis.

Baseado na ambiente que estava, pensei que era apenas um bar meio inferninho com um som legal e tal, tipo desses que existem na Augusta como Estúdio SP, Sarayevo e por aí vai. Pensei até que os travestis pudessem estar trabalhando ou até paquerando os dois caras. Até aí normal. Sem problemas. Mas, pelo sim e pelo não, olhei para o fundo do bar só para ter certeza e foi aí que comecei a me preocupar. Percebi que as mulheres estavam vestidas com roupas um tanto quanto insinuantes e que elas eram muito, mais muito mais altas do que se poderia se esperar de mulheres comuns. Ainda que num país frio, não me lembro das mulheres americanas serem tão altas assim.

Eu ainda não tinha percebido, mas do meu lado esquerdo encostado na parede, estavam duas "moças” sentadas em uma mesa redonda dessas que são bem altas olhando em minha direção, eis que me levanta um cara com 1,85m, 1,90 loiro de cabelos compridos e cara quadrada, daquelas feita a machada tipo a do Tarsísio Meira o qual me deu boas vindas e me avisou que a entrada custava 30 dólares.

Nessa hora bateu um desespero. Que lugar era aquele? Respirei fundo, e disse que eu tinha entrado no bar errado. Saí de lado correndo meio que sem rumo, não sei antes dar de cara com mais um travesti chegando.

Após o susto achei que tinha tido aventura demais por uma noite. Comprei cerveja para levar para casa e um café no Starbucks para servir de consolo. No caminho fiquei pensando sobre que tipo de lugar era aquele. Será que era apenas um bar gay no qual estavam alguns travestis e eu tenha julgado cedo demais ou será que era um puteiro de travestis mesmo? Tipo uma Avenida Indianópolis indoor?

Eu que não volto para descobrir. Pelo sim, pelo não, está dada a dica. Quando vierem a Nova York anotem esse nome e por lá não apareçam: Fusion!

Minha conturbada chegada

E aí pessoal!

Cheguei. A minha chegada foi um pouco tumultuada. Na verdade, bem conturbada...

Alguns pequenos fatos sobre meu primeiro dia aqui, que até então eu não tinha notado, mas era sexta-feira 13. Logo, tudo de errado podia acontecer!

Na imigração, como sempre, fiquei um pouco tenso. Nunca sei o que o “guardinha” vai me perguntar. De frente com “Sr. Polissa” lá estou eu esperando as perguntas de praxe. O cara abre o meu passaporte e pergunta: “Para qual empresa o Sr. trabalha? “KPMG” – respondo, eu. Depois de um silêncio da minha parte torturante achei que seria bom puxar conversa e emendei:  “É uma empresa que presta serviço de consultoria tributária e auditoria”. O guardinha me olhou com uma cara de desprezo e não teve dúvida em responder “Eu sei muito bem o que a KPMG faz, Sr.”. Depois desse soco, achei melhor ficar em silêncio mesmo e torcer para ele não encrencar com nada. Pronto, digitais e um Welcome to United States me deixaram mais tranqüilo.

Passando para alfândega, aleatoriamente e com sorte por ser sexta-feira 13 fui escolhido para passar as malas pelo raio-x. O casal na minha frente estava com 5 malas e ninguém nem olhou. Na hora a primeira coisa que pensei foi: “Adeus cachaças queridas”! Já comecei a preparar o discurso para justificar duas garrafas da bebida como sendo presente e torcendo para não tomar nenhuma multa, pois na fila da imigração exibia-se um filme com diversas pessoas sendo multadas.

A guardinha me pergunta se eu trouxe vegetais, comida,  semente e outras coisas, mas não me pergunta nada sobre bebida. Por enquanto, beleza. As malas são colocadas na esteira passam pelo raio-x, ela olha para outra e diz: “Nada de mais. Apenas duas garrafas de vinho”. Pode deixar seguir! Puta alívio!

Saio da alfândega e procuro alguém com o meu nome e encontro uma placa Sr. Leal. Como eu havia adiantando para alguns antes de vir para cá, era de fato um indiano me esperando. Nada mais nada menos do que dirigindo uma limusine. Nada mal para o primeiro dia. Água e jornal em um Lincon. Caí na besteira de puxar assunto com o cara. Erro. O cara desembestou a falar sem parar. Em resumo. O cara era contador, administrador e muito frustrado por não exercer a profissão, mas com a crise ele disse que ganhava mais dinheiro dirigindo carros: USD 25 mil no ano.

Segundo sua teoria os EUA estão em crise por conta da queda de qualidade dos produtos, com exceção aos produzidos pela Apple, e porque tudo o que vai para a Índia e para o México encontram a Sra. falência. As companhias aéreas americanas entraram em crise por mandar o serviço de atendimento para a Índia e as automobilísticas por produzirem no México. A Boeing continua bem porque ainda produz aqui.
Mudando completamente de assunto e em uma verborragia sem fim, ele disse que eu ia ter que trabalhar muito mais do que eu trabalhava no Brasil, um lugar em que, segundo suas palavras, a jornada é super tranqüila. Tentei argumentar que São Paulo era um local diferente e que a gente trabalhava muito e ele quase teve um ataque de risos! Queira mandá-lo para pqp.

Depois de uma hora dessa conversa chego na recepção do flat onde eu iria morar e fui recebido pelo Mr. Simpatia da recepção que após passar o olho em uma lista me diz: “Me desculpe, mas não tem nenhum senhor Leal ou Danilo aqui e muito menos uma chave ou informação sobre sua chegada!” Ótimo. Era tudo o que eu queria ouvir depois de 8 horas de vôo com um cara da Arábia saudita bem “cheiroso” do meu lado e um bebê de um ano resmungando na orelha! Adeus banho quente! Procurei não me desesperar.

Peguei meu celular para ligar para o RH daqui e vi que não tinha sinal! O Mr. Simpatia me deixou usar o telefone e fui gentilmente informado que eu apenas poderia entrar no apartamento 4 da tarde. Eram 9h da manhã. Para ajudar, o viado do Simpatia disse que eu não poderia ficar na recepção e que muito menos ele poderia guardar minhas malas. Ele me mandou ir embora me dando direções de um café com internet.

Foi aí que percebi: Ah, agora sim. f. grandão! Saí do conforto no Brasil para ser um “homeless” nos EUA, com 2 malas que tinham basicamente todo meu guarda-roupa mais minha mochila com o computador, perambulando por NY. Cada esquina que eu cruzava um fdp de taxista buzinava oferecendo viagem. Para melhorar, acreditem se quiser, começou a chover. Uma chuva fina, mas que com o vento forte parecia uma tapa na cara a cada rajada.

Após algumas quadras, eis que entro no tão esperado café com internet, diga-se de passagem à bagatela de USD 3,75 por 15 minutos. Mando e-mail para todo mundo que de alguma forma poderia me ajudar. Sócios, RH, empresa nos EUA que me buscou no aeroporto, enfim, mobilizei 500 pessoas em 15 minutos.

Peço um suco de laranja para matar o tempo para o atendente que até então eu supunha ser chinês e na verdade descobri mais tarde era Nepalês e pago mais uma bagatela de USD 4,75 por um suco ruim pra cacete! Fiquei puto. Eu não conseguia acreditar. 9 reais por aquela merda de suco de laranja! Respirei fundo e esperei. Meu celular começa a funcionar. Recebi umas 10 ligações para tentar resolver o problema! Imagino a conta que vai vir. A empresa responsável pela locação me manda ficar no café que eles iam tentar antecipar a entrega das chaves para o quanto antes, seja lá o que for isso.

Começo a conversar com o cara do Nepal. Pensei que era algum imigrante fugido do país, mas para minha surpresa ele era estudante de administração. Assim que terminar o curso volta para o Nepal. Durante quase 1 hora ele discursou sobre a guerra entre o Nepal e a Inglaterra, especialmente sobre a parte em que os Nepaleses tentavam tapar os canhões com a barriga para impedir o tiro e misteriosamente não dava certo. Por que será me perguntei? E porque ele está me falando sobre essa porcaria de guerra?! Eu ouvia mas pensava: “Eu só quero entrar no apartamento e tomar um banho quente, mais nada!”.

Ele mudou de assunto e disse que os países ricos deveriam dar dinheiro para o Brasil como uma indenização para que a Amazônia não fosse destruída já que é o pulmão do mundo, segundo suas próprias palavras. Salvo engano essa tese caiu por terra na década de 90. Quando ele ficou mais à vontade começou a me perguntar sobre as mulheres brasileiras e me perguntou se era verdade que a gente falava entre amigos “in your ass or something like that”. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer e mudei de assunto.

Pedi para deixar as malas por lá e fui dar uma volta. Vi uma loja de aparelhos eletrônicos e resolvi comprar um adaptador de tomada. Entro e o vendedor que parecia o próprio Saddam Hussein me mostra um daqueles bem vagabundebas e me oferece ao preço de USD 60. Pensei, caraca não faz o menor sentido. Estou no país que deveria custar 10 centavos e cara quer R$ 120? Agradeci e ele disse para não se preocupar que ele fazia por USD 25. Aí entendi a maldade. Pensei: estou no centro de São Paulo. Já estava puto, me deu vontade de xingar o cara. Me deu vontade de dizer: Vai te fuder pra lá, cumpadre! Tá me achando com cara de trouxa!? Mas confesso, que não aprendi isso na KPMG e muito menos nas aulas de inglês.

2 horas depois recebo uma ligação dizendo para eu voltar ao flat. Pensei: salvo!!! Ledo engano! Chego lá o Mr. Simpatia disse que eu ia poder esperar no lounge do 4º andar. Ele disse que tinha televisão e um sofá. Caraca, nessa hora eu não agüentei e disse em português: é um viado mesmo! Porque que o filho da puta não me deixou esperar lá antes???? Por que ele me mandou ir para um café sendo que eu poderia ter subido para um local com água, café, banheiro e o mais importante: aquecimento!  PQP!!! VSF!!!

Não bastasse isso, ele me disse: “This is the deal: você vai lá e guarda suas malas dentro do apartamento pois a mulher da limpeza chegou. Mas você não pode ficar lá”. Foi a sensação mais frustrante que alguém poderia me oferecer...

Subo, encontro a tal mulher, uma chinesa, que me abre a porta. Guardo as malas e ela me diz que o apartamento está pronto, mas que ela não pode me dar a chave. Essa hora eu tentei lembrar algum palavrão em chinês que o cara que trampa comigo me ensinou, mas eu não conseguia! Como assim??? O apartamento está pronto, eu estou dentro dele, mas não posso ficar??? “É isso mesmo!” me respondeu a mulher! Percebi que não ia adiantar discutir com ela.

Desci para o 4º. andar e dormi no sofá abraçado com meu laptop. Sou acordado por uma mulher que ficou preocupada com meu estado e queria saber se eu estava tudo bem. Olhei para ela e pensei: “Tudo ótimo. Delícia de sexta-feira. Estou sujo, com frio e com fome! Foi aí que me dei conta de que era sexta-feira 13.

1h da tarde, recebo as chaves.

Gente, brincadeira à parte, agora que estou dentro do apartamento não foi nada mal passar frio, fome e tomar chuva, em NY com um apartamento bem legal na Broadway.

No dia seguinte vou ao mercado. Em contra partida aos eletrônicos, roupas e perfumes, comida é uma coisa muito cara!! Sabe quanto custa um pé de alface? USD 3!!!! 6 reais por um pé de alface! Inacreditável! Carne é vendida a preço de camarão. Já o sorvete Haagen Dazs é vendido a preço de banana. Por isso eles são gordos. Bem gordos. E haja comida congelada! Caraca, eles comem muito mal!
Comprei o básico para uma sopa e uma salada, mas não resisti  levei maça à bagatela de 11 reais o kg. Lembrei das maças que minha chefe leva para o escritório. Eu comia duas todo dia... Aqui, se ele oferecessem maça ia ser considerado parte da remuneração, de tão cara!

Para encerrar eu queria muito que vocês pudessem ver o programa que eu estou vendo agora: “Brazil Butt Lift”. É tipo um 1406 ou Polishop. Meia hora de programa para tentar convencer as pessoas a comprar um DVD que ensina como ter uma bunda brasileira. Sensacional!!! Eu passei mal de rir! O melhor é ver as “gringas” dançando de forma desengonçada e dizendo “check ou my butt”! Sério, to passando mal de rir!