E aí pessoal!
Cheguei. A minha chegada foi um pouco tumultuada. Na verdade, bem conturbada...
Alguns pequenos fatos sobre meu primeiro dia aqui, que até então eu não tinha notado, mas era sexta-feira 13. Logo, tudo de errado podia acontecer!
Na imigração, como sempre, fiquei um pouco tenso. Nunca sei o que o “guardinha” vai me perguntar. De frente com “Sr. Polissa” lá estou eu esperando as perguntas de praxe. O cara abre o meu passaporte e pergunta: “Para qual empresa o Sr. trabalha? “KPMG” – respondo, eu. Depois de um silêncio da minha parte torturante achei que seria bom puxar conversa e emendei: “É uma empresa que presta serviço de consultoria tributária e auditoria”. O guardinha me olhou com uma cara de desprezo e não teve dúvida em responder “Eu sei muito bem o que a KPMG faz, Sr.”. Depois desse soco, achei melhor ficar em silêncio mesmo e torcer para ele não encrencar com nada. Pronto, digitais e um Welcome to United States me deixaram mais tranqüilo.
Passando para alfândega, aleatoriamente e com sorte por ser sexta-feira 13 fui escolhido para passar as malas pelo raio-x. O casal na minha frente estava com 5 malas e ninguém nem olhou. Na hora a primeira coisa que pensei foi: “Adeus cachaças queridas”! Já comecei a preparar o discurso para justificar duas garrafas da bebida como sendo presente e torcendo para não tomar nenhuma multa, pois na fila da imigração exibia-se um filme com diversas pessoas sendo multadas.
A guardinha me pergunta se eu trouxe vegetais, comida, semente e outras coisas, mas não me pergunta nada sobre bebida. Por enquanto, beleza. As malas são colocadas na esteira passam pelo raio-x, ela olha para outra e diz: “Nada de mais. Apenas duas garrafas de vinho”. Pode deixar seguir! Puta alívio!
Saio da alfândega e procuro alguém com o meu nome e encontro uma placa Sr. Leal. Como eu havia adiantando para alguns antes de vir para cá, era de fato um indiano me esperando. Nada mais nada menos do que dirigindo uma limusine. Nada mal para o primeiro dia. Água e jornal em um Lincon. Caí na besteira de puxar assunto com o cara. Erro. O cara desembestou a falar sem parar. Em resumo. O cara era contador, administrador e muito frustrado por não exercer a profissão, mas com a crise ele disse que ganhava mais dinheiro dirigindo carros: USD 25 mil no ano.
Segundo sua teoria os EUA estão em crise por conta da queda de qualidade dos produtos, com exceção aos produzidos pela Apple, e porque tudo o que vai para a Índia e para o México encontram a Sra. falência. As companhias aéreas americanas entraram em crise por mandar o serviço de atendimento para a Índia e as automobilísticas por produzirem no México. A Boeing continua bem porque ainda produz aqui.
Mudando completamente de assunto e em uma verborragia sem fim, ele disse que eu ia ter que trabalhar muito mais do que eu trabalhava no Brasil, um lugar em que, segundo suas palavras, a jornada é super tranqüila. Tentei argumentar que São Paulo era um local diferente e que a gente trabalhava muito e ele quase teve um ataque de risos! Queira mandá-lo para pqp.
Depois de uma hora dessa conversa chego na recepção do flat onde eu iria morar e fui recebido pelo Mr. Simpatia da recepção que após passar o olho em uma lista me diz: “Me desculpe, mas não tem nenhum senhor Leal ou Danilo aqui e muito menos uma chave ou informação sobre sua chegada!” Ótimo. Era tudo o que eu queria ouvir depois de 8 horas de vôo com um cara da Arábia saudita bem “cheiroso” do meu lado e um bebê de um ano resmungando na orelha! Adeus banho quente! Procurei não me desesperar.
Peguei meu celular para ligar para o RH daqui e vi que não tinha sinal! O Mr. Simpatia me deixou usar o telefone e fui gentilmente informado que eu apenas poderia entrar no apartamento 4 da tarde. Eram 9h da manhã. Para ajudar, o viado do Simpatia disse que eu não poderia ficar na recepção e que muito menos ele poderia guardar minhas malas. Ele me mandou ir embora me dando direções de um café com internet.
Foi aí que percebi: Ah, agora sim. f. grandão! Saí do conforto no Brasil para ser um “homeless” nos EUA, com 2 malas que tinham basicamente todo meu guarda-roupa mais minha mochila com o computador, perambulando por NY. Cada esquina que eu cruzava um fdp de taxista buzinava oferecendo viagem. Para melhorar, acreditem se quiser, começou a chover. Uma chuva fina, mas que com o vento forte parecia uma tapa na cara a cada rajada.
Após algumas quadras, eis que entro no tão esperado café com internet, diga-se de passagem à bagatela de USD 3,75 por 15 minutos. Mando e-mail para todo mundo que de alguma forma poderia me ajudar. Sócios, RH, empresa nos EUA que me buscou no aeroporto, enfim, mobilizei 500 pessoas em 15 minutos.
Peço um suco de laranja para matar o tempo para o atendente que até então eu supunha ser chinês e na verdade descobri mais tarde era Nepalês e pago mais uma bagatela de USD 4,75 por um suco ruim pra cacete! Fiquei puto. Eu não conseguia acreditar. 9 reais por aquela merda de suco de laranja! Respirei fundo e esperei. Meu celular começa a funcionar. Recebi umas 10 ligações para tentar resolver o problema! Imagino a conta que vai vir. A empresa responsável pela locação me manda ficar no café que eles iam tentar antecipar a entrega das chaves para o quanto antes, seja lá o que for isso.
Começo a conversar com o cara do Nepal. Pensei que era algum imigrante fugido do país, mas para minha surpresa ele era estudante de administração. Assim que terminar o curso volta para o Nepal. Durante quase 1 hora ele discursou sobre a guerra entre o Nepal e a Inglaterra, especialmente sobre a parte em que os Nepaleses tentavam tapar os canhões com a barriga para impedir o tiro e misteriosamente não dava certo. Por que será me perguntei? E porque ele está me falando sobre essa porcaria de guerra?! Eu ouvia mas pensava: “Eu só quero entrar no apartamento e tomar um banho quente, mais nada!”.
Ele mudou de assunto e disse que os países ricos deveriam dar dinheiro para o Brasil como uma indenização para que a Amazônia não fosse destruída já que é o pulmão do mundo, segundo suas próprias palavras. Salvo engano essa tese caiu por terra na década de 90. Quando ele ficou mais à vontade começou a me perguntar sobre as mulheres brasileiras e me perguntou se era verdade que a gente falava entre amigos “in your ass or something like that”. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer e mudei de assunto.
Pedi para deixar as malas por lá e fui dar uma volta. Vi uma loja de aparelhos eletrônicos e resolvi comprar um adaptador de tomada. Entro e o vendedor que parecia o próprio Saddam Hussein me mostra um daqueles bem vagabundebas e me oferece ao preço de USD 60. Pensei, caraca não faz o menor sentido. Estou no país que deveria custar 10 centavos e cara quer R$ 120? Agradeci e ele disse para não se preocupar que ele fazia por USD 25. Aí entendi a maldade. Pensei: estou no centro de São Paulo. Já estava puto, me deu vontade de xingar o cara. Me deu vontade de dizer: Vai te fuder pra lá, cumpadre! Tá me achando com cara de trouxa!? Mas confesso, que não aprendi isso na KPMG e muito menos nas aulas de inglês.
2 horas depois recebo uma ligação dizendo para eu voltar ao flat. Pensei: salvo!!! Ledo engano! Chego lá o Mr. Simpatia disse que eu ia poder esperar no lounge do 4º andar. Ele disse que tinha televisão e um sofá. Caraca, nessa hora eu não agüentei e disse em português: é um viado mesmo! Porque que o filho da puta não me deixou esperar lá antes???? Por que ele me mandou ir para um café sendo que eu poderia ter subido para um local com água, café, banheiro e o mais importante: aquecimento! PQP!!! VSF!!!
Não bastasse isso, ele me disse: “This is the deal: você vai lá e guarda suas malas dentro do apartamento pois a mulher da limpeza chegou. Mas você não pode ficar lá”. Foi a sensação mais frustrante que alguém poderia me oferecer...
Subo, encontro a tal mulher, uma chinesa, que me abre a porta. Guardo as malas e ela me diz que o apartamento está pronto, mas que ela não pode me dar a chave. Essa hora eu tentei lembrar algum palavrão em chinês que o cara que trampa comigo me ensinou, mas eu não conseguia! Como assim??? O apartamento está pronto, eu estou dentro dele, mas não posso ficar??? “É isso mesmo!” me respondeu a mulher! Percebi que não ia adiantar discutir com ela.
Desci para o 4º. andar e dormi no sofá abraçado com meu laptop. Sou acordado por uma mulher que ficou preocupada com meu estado e queria saber se eu estava tudo bem. Olhei para ela e pensei: “Tudo ótimo. Delícia de sexta-feira. Estou sujo, com frio e com fome! Foi aí que me dei conta de que era sexta-feira 13.
1h da tarde, recebo as chaves.
Gente, brincadeira à parte, agora que estou dentro do apartamento não foi nada mal passar frio, fome e tomar chuva, em NY com um apartamento bem legal na Broadway.
No dia seguinte vou ao mercado. Em contra partida aos eletrônicos, roupas e perfumes, comida é uma coisa muito cara!! Sabe quanto custa um pé de alface? USD 3!!!! 6 reais por um pé de alface! Inacreditável! Carne é vendida a preço de camarão. Já o sorvete Haagen Dazs é vendido a preço de banana. Por isso eles são gordos. Bem gordos. E haja comida congelada! Caraca, eles comem muito mal!
Comprei o básico para uma sopa e uma salada, mas não resisti levei maça à bagatela de 11 reais o kg. Lembrei das maças que minha chefe leva para o escritório. Eu comia duas todo dia... Aqui, se ele oferecessem maça ia ser considerado parte da remuneração, de tão cara!
Para encerrar eu queria muito que vocês pudessem ver o programa que eu estou vendo agora: “Brazil Butt Lift”. É tipo um 1406 ou Polishop. Meia hora de programa para tentar convencer as pessoas a comprar um DVD que ensina como ter uma bunda brasileira. Sensacional!!! Eu passei mal de rir! O melhor é ver as “gringas” dançando de forma desengonçada e dizendo “check ou my butt”! Sério, to passando mal de rir!